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Grupo de Estudos do Cancro do Pulmão

Eu sou sobrevivente | Azuil Miranda Oliveira

No âmbito da campanha “Eu sou sobrevivente”, promovida pelo Grupo de Estudos do Cancro do Pulmão (GECP), partilhamos a história de Azuil Miranda Oliveira. Diagnosticado em 2014, aos 60 anos, Azuil traz-nos um relato na primeira pessoa sobre a descoberta abrupta da doença, a dureza dos tratamentos oncológicos e a forma como a ciência, a força psicológica e o amor à família o guiaram ao longo de uma jornada de superação que já conta com mais de uma década.

Recuando a antes de abril de 2014, como era o seu dia a dia e os projetos aos 60 anos?
Era um trabalhador normal e gozava a vida sem pensar no que me esperava. Para mim, tudo era fácil, era um autêntico mar de rosas.

Recorda-se de algum sintoma específico ou sinal de alerta que o tenha levado a procurar assistência médica?
Sim. Houve um mês em que me constipei três vezes e, por isso, fui à minha médica de família, que me receitou vários ciclos de antibióticos. Ao terceiro ciclo, vendo que não surtia qualquer efeito, ela passou-me outros exames que me levaram a um pneumologista para fazer testes ao pulmão. Estes testes não deram em nada, porque eu ventilava muito bem. A situação só se alterou quando fui a Aveiro fazer um raio-X urgente. O técnico que realizou o exame disse-me que o mesmo não era conclusivo, mas que existia uma massa escura no pulmão e que eu deveria ir imediatamente à médica de família pedir para fazer uma TAC. No mesmo dia, arranquei de Aveiro, sempre sozinho, tive de pedir a credencial e fui fazer a TAC. Obtive o resultado ainda nesse dia e fui ao pneumologista. Ele viu o que eu tinha no exame — uma bolinha com mais de dois centímetros agarrada ao meu pulmão e à minha pleura — e disse-me: “Azuil, se queres ser tratado, esquece o médico de família, já estás por minha conta. Dentro de oito dias tens de estar a ser operado”.

Como foi passar por todo este processo inicial sozinho?
Foi precisamente o que me ajudou a ter mais força, porque aí também pus a minha capacidade e a minha resistência à prova. Como era um problema meu, queria ser o primeiro a saber e, só depois, participar o assunto às outras pessoas. Embora o sofrimento ninguém mo fosse tirar, nem a mim nem a ninguém, eu queria ser o primeiro a saber e não queria que me escondessem nada. E, aliás, foi um percurso em que, até hoje, ninguém nunca me escondeu nada, porque eu nunca o permiti.

O diagnóstico de cancro do pulmão traz sempre um grande impacto. Lembra-se de como recebeu a notícia?
Eu pensei que ia ser fácil e que ia sair disso muito rápido, mas não foi. Foi tudo muito difícil e aconteceu tudo ao contrário do que eu pensava. Fui internado no dia 10 de abril de 2014 e, no dia seguinte, já estava a ser operado. Teve de me ser retirado cerca de um quarto do pulmão esquerdo e também toda a minha pleura do lado esquerdo. A doença já estava num estado avançado. Além disso, mais tarde, as metástases que ficaram após a operação passaram para o pulmão direito, pelo que tive de entrar em ciclos de quimioterapia. Apesar de tudo, considero que tive muita sorte.

Durante o tempo em que esteve internado e nas etapas de tratamento que se seguiram, onde conseguiu encontrar forças para superar o cansaço ou o desânimo?
O processo de recuperação foi muito difícil, pois eu quase não podia respirar, ao ponto de até beber um copo de água se tornar difícil. Foi também um período em que não quis receber nenhumas visitas. Fui buscar a força às duas netas que já tinha na altura. Elas eram muito novas e eu achei que elas precisavam de ver o avô por muitos mais anos, assim como eu precisava de as ver a elas. Também pedi ajuda psicológica. Isto é muito importante: todos os doentes que passem por isto não devem pensar que são heróis sozinhos, porque não são. Temos de pedir muita ajuda psicológica e apoiarmo-nos na nossa família, que está connosco e que sofre tanto ou mais do que nós.

Como descreve o papel dos profissionais de saúde que o têm acompanhado desde o primeiro dia e o impacto que tiveram no seu processo?
Foram uns autênticos deuses que me apareceram e passaram a ser parte da família. Ainda hoje mantenho contacto com a minha médica, a Dr.ª Alice Pêgo, que me acompanhou durante vários anos na quimioterapia e que atualmente já está reformada. Aliás, quando foi para a reforma, a Dr.ª Alice deixou escrito no protocolo dos doentes que continuassem a pesquisa para o meu caso, com base nos tecidos que me retiraram. Entretanto, essa pesquisa permitiu detetar qual era a minha célula maligna e o que é que ela faz. Por isso, atualmente estou a fazer uma medicação de 600 miligramas de manhã e outras 600 à noite, que é dirigida especificamente a esta célula. Desde aí, temos feito TACs de controlo e o último exame foi uma PET, que mostrou estar tudo estável.

Já passaram 12 anos desde aquele internamento em abril de 2014. Qual foi a sensação no dia em que os médicos lhe confirmaram que a cirurgia e os tratamentos tinham resultado?
Foi ótima. Mas nós, os doentes oncológicos, vivemos sempre num clima de medo. Se sentimos uma constipação ou uma dor, pensamos logo que é o cancro a incomodar-nos de novo. Este clima de medo não sai. Fiquei com a sensação de que estava bem e de que tinha sido bem cuidado, mas o medo ninguém mo tirou; ele mora cá dentro comigo.

Costuma dizer-se que uma experiência desta dimensão nos obriga a redefinir prioridades. O que é que hoje valoriza na vida que antes talvez não desse tanta importância?
Valorizo tudo. Desde uma simples flor até uma árvore a crescer. Valorizo ainda mais a família e estou muito mais atento a obstáculos que possam surgir. Tudo mudou na minha vida e na minha cabeça, para melhor. Agarrei-me à música e estudei com um professor durante um ano para aprender a tocar cavaquinho. Atualmente, toco num rancho, onde sou o responsável pelas cordas, e também canto noutro grupo aqui perto de mim. Além disso, comprei um carro desportivo que tinha muito gosto em ter, satisfazendo assim um desejo meu.

Que significado têm para si as três palavras da nossa campanha: “Eu sou sobrevivente”?
Eu sou, de facto, um sobrevivente. Fui um homem que não se deixou cair; não me considero um herói, mas considero-me uma pessoa de bastante força. E foi por toda essa força que consegui sobreviver. Por isso mesmo, quero partilhar o meu testemunho com mais pessoas, porque quero ajudar.

Que mensagem de força gostaria de deixar a quem recebeu este diagnóstico recentemente e às suas famílias?
Primeiro que tudo, é que temos de confiar na Medicina. Além disso, temos de preparar a nossa parte psicológica para conseguir suportar todo este processo. Por fim, independentemente da fase do processo em que se encontrem, cuidem da medicação, mas nunca desistam da vida. A nossa vida é um bem precioso e temos de cuidar dela com o mesmo desvelo com que se cuida de um bebé, de algo que é muito valioso.

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